Adélia compreendeu cedo que ensinar nunca foi apenas transmitir conteúdos. Era abrir portas, despertar sonhos, revelar possibilidades.
Castanheira despede-se, nesta quarta-feira, 1º de julho, de Adélia Cristina de Oliveira Batista.
Assim que a notícia de sua morte, em circunstâncias que abalaram toda a cidade, chegou até nós, estivemos com parte de sua família, especialmente com sua mãe, no Bairro Noga. A intenção inicial era fazer o que temos procurado realizar há anos: escrever uma homenagem póstuma para preservar, na memória coletiva de Castanheira, as melhores histórias daqueles que partiram.
Muitos aguardavam este texto.
Mas decidimos romper uma tradição.
Este não será um texto sobre o homem que, pela violência, interrompeu uma vida. A ele já foram destinados os holofotes de uma sociedade que, muitas vezes, transforma o horror em manchete e faz da tragédia um espetáculo.
Este é um texto sobre quem merece ser lembrada.
É sobre uma mulher que, ainda muito jovem, escolheu a educação como caminho. E permaneceu fiel a essa escolha por quase trinta e três anos.
Adélia compreendeu cedo que ensinar nunca foi apenas transmitir conteúdos. Era abrir portas, despertar sonhos, revelar possibilidades. Para centenas de crianças, ela foi a professora que segurou a mão nas primeiras letras, celebrou as primeiras conquistas e acreditou quando muitos ainda não acreditavam.
Fez da docência muito mais que uma profissão.
Fez dela uma missão.
Missão exercida com ternura, paciência, firmeza e amor.
Enquanto muitos contam riquezas pelo que acumulam, educadores contam sua história pelo que semeiam. E Adélia semeou esperança.
Os frutos apareceram ainda em vida. Um deles entrou para a história da educação de Castanheira: a conquista do primeiro reconhecimento do município no programa Alfabetiza MT, referente ao ano de 2023. Um prêmio que carrega seu esforço, sua competência e, sobretudo, sua dedicação silenciosa às crianças.
É verdade que o desfecho de sua história nos confronta com perguntas para as quais não encontramos respostas satisfatórias.
A sensação de injustiça é inevitável.
Parece-nos impossível aceitar que alguém cuja existência foi dedicada a construir vidas tenha encontrado um fim tão brutal.
Talvez seja exatamente aí que a razão humana encontre seus limites.
Quando as explicações da terra se esgotam, resta-nos olhar para além dela. Os cristãos chamam esse lugar de céu. Outros lhe dão nomes diferentes. Mas quase todas as tradições compartilham a esperança de que o amor, a bondade e a verdade não terminam no último suspiro.
Há uma frase do educador Paulo Freire que parece traduzir a herança deixada por Adélia: "A educação não transforma o mundo. A educação muda as pessoas. As pessoas transformam o mundo."
Ela ajudou a mudar pessoas.
E pessoas transformam cidades.
Por isso, sua história não termina hoje.
Ela continuará viva na lembrança dos ex-alunos que aprenderam a ler sob sua orientação; nas famílias que testemunharam seu carinho; nos colegas que dividiram salas de aula; e em cada criança que descobriu, pelas mãos daquela professora, que o conhecimento também pode ser uma forma de afeto.
A violência interrompeu sua vida.
Mas não escreverá sua biografia.
Porque a última palavra sobre Adélia não pertence ao mal.
Pertence ao bem que ela espalhou.
E esse, ao contrário da violência, permanece.