A história de Raimundo guarda capítulos cada vez mais raros nos dias atuais.
Mais um mineiro que seguiu a rota dos pioneiros rumo ao noroeste mato-grossense encerra, neste sábado (13), sua caminhada terrena. Raimundo Gonçalves da Costa deixa uma história escrita com trabalho, honestidade, simplicidade e uma alegria que jamais se apagou, mesmo diante das maiores dificuldades.
Natural de Santa Maria de Suaçuí, no Vale do Rio Doce, em Minas Gerais, Raimundo chegou à região ainda antes da década de 1980. Depois de passar por Tangará da Serra, estabeleceu-se por pouco tempo em Juína, atraído, como tantos outros brasileiros, pelas notícias de uma nova fronteira que se abria na Amazônia mato-grossense. Naquele tempo, a então AR-1 avançava a partir de Vilhena (RO) em direção a Aripuanã, abrindo caminhos para o sonho de milhares de famílias.
Quem se recorda daqueles primeiros anos é o irmão, Newton Gonçalves da Costa, o Lucim, com quem mantinha uma ligação tão forte que muitos os consideravam "quase gêmeos". “Juína só tinha cinco alqueires abertos, onde hoje está a Rodoviária. "O resto era mato”, relembra.
Foi naquele cenário desafiador que Raimundo enxergou uma oportunidade. Trabalhou na derrubada e abertura de áreas que mais tarde se transformariam em propriedades rurais. Pela atividade, recebeu de alguns o apelido de “Gato”, nome frequentemente atribuído àqueles que lideravam equipes nesse tipo de serviço.
“Ele ganhou a vida abrindo terras para os outros, até conseguir comprar a sua própria”, conta a filha Eliane. Sua trajetória como produtor rural começou no Sítio Manda Saia, na região hoje conhecida como Capoia. Depois, estabeleceu-se no Sítio Dois Irmãos, na Linha Santa Emília, onde viveu mais de três décadas de sua história em Castanheira. A família também teve propriedade em Fontanillas, mas sempre manteve suas raízes fincadas em Castanheira. Na Rua João Brasil, foram décadas construindo amizades e fortalecendo laços.
A história de Raimundo guarda capítulos cada vez mais raros nos dias atuais. Eduardo, um dos netos, destaca o amor incondicional pela família. Carol, sua esposa, lembra da bondade que conquistava até mesmo as crianças. Já Emerson, filho conhecido como “Boiadeiro”, reforça o exemplo de vida reconhecido por todos aqueles que hoje se reúnem na Casa da Saudade para a despedida.
Entre tantas lembranças, uma das mais marcantes surgiu nos últimos dias de sua vida. Mesmo enfrentando uma enfermidade terminal, Raimundo jamais negou sua fé ou permitiu que a revolta ocupasse seu coração. Internado no Hospital São Lucas, em Juína, continuou distribuindo conselhos, fazendo brincadeiras com as crianças e demonstrando serenidade. Mas também revelou sua humanidade ao fazer um pedido comovente à filha Eliane: “Filha, não aguento mais. Peça a Deus por mim!”.
Raimundo Gonçalves da Costa deixa a esposa, Edna Ferreira da Costa, filhos, netos, familiares e uma herança que não pode ser medida em bens materiais. Deixa exemplos. E entre todos eles, talvez o mais valioso seja a simplicidade. “Poderia ter acumulado muitas coisas, mas escolheu viver com o necessário, valorizando as pessoas e não os bens”, recorda Eliane.
Num tempo em que muitos medem o sucesso pelo que possuem, Raimundo será lembrado pelo que foi. Um pioneiro que ajudou a abrir caminhos, construiu sua história com as próprias mãos e partiu deixando algo que o tempo não apaga: o respeito, a gratidão e a saudade daqueles que tiveram o privilégio de caminhar ao seu lado.