É compreensível que um episódio desta natureza desperte indignação, mas é preciso tomar cuidado para não absolutizar exceções.
A prisão preventiva de uma missionária, em Cuiabá, acusada pela Polícia Civil de utilizar um projeto religioso para favorecer uma facção criminosa, transformou-se no assunto mais comentado da semana em Mato Grosso e pauta obrigatória dos melhores Sites. O caso ganhou enorme repercussão não apenas pela gravidade das acusações, mas porque envolve uma família conhecida no meio evangélico, um projeto de assistência a detentos e, agora, uma série de questionamentos sobre o papel das instituições religiosas na sociedade.
É compreensível que um episódio dessa natureza desperte indignação. Também é natural que leve a debates sobre a legislação que facilita a abertura de igrejas, a imunidade tributária concedida aos templos e o acesso de grupos religiosos ao sistema prisional para desenvolver projetos de evangelização e ressocialização. Esses são temas legítimos e merecem discussão séria.
O problema começa quando um caso específico passa a ser utilizado para transformar exceções em regras e suspeitas em verdades absolutas.
O próprio cristianismo, antes mesmo de qualquer crítica contemporânea, reconhece essa realidade. Jesus contou a parábola do joio e do trigo justamente para ensinar que o verdadeiro e o falso convivem lado a lado, muitas vezes indistinguíveis aos olhos humanos. Sem o dom da onisciência, ninguém é capaz de afirmar, com absoluta certeza, quem vive uma transformação sincera e quem apenas representa um papel.
Da mesma forma, não seria justo condenar todo e qualquer projeto religioso desenvolvido dentro dos presídios por causa da conduta que está sendo atribuída a determinadas pessoas. Há iniciativas sérias, fiscalizadas e reconhecidas, conduzidas por igrejas, entidades e voluntários que dedicam anos de suas vidas ao trabalho de recuperação de dependentes químicos, acolhimento de famílias, assistência a presos e reinserção social de pessoas que desejam reconstruir suas histórias.
É igualmente verdade que alguns condenados simulam conversões religiosas em busca de benefícios legais ou de uma imagem favorável perante a Justiça. Mas também é verdade que muitos homens e mulheres abandonaram definitivamente a criminalidade depois de um encontro genuíno com a fé. Ignorar qualquer um desses dois fatos seria fechar os olhos para a realidade.
Vale lembrar uma frase frequentemente atribuída ao dramaturgo e escritor Nelson Rodrigues: "Toda unanimidade é burra." A autoria é conhecida, mas a reflexão permanece atual. Generalizações costumam produzir injustiças. Quando um caso isolado passa a servir como parâmetro para julgar milhares de pessoas ou instituições, corre-se o risco de destruir aquilo que efetivamente produz bons frutos.
Se as acusações forem comprovadas pela Justiça, que os responsáveis respondam integralmente por seus atos. Mas que isso não sirva de pretexto para desacreditar, indiscriminadamente, todos aqueles que, movidos pela fé e pelo compromisso com o próximo, desenvolvem um trabalho honesto em lugares onde o Estado, muitas vezes, não consegue chegar.
O joio existe. Sempre existirá. Mas o trigo também. E talvez um dos maiores desafios de uma sociedade madura seja justamente não permitir que a existência de um faça desaparecer o valor do outro.